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A digitalização da sociedade: economia da Web no Brasil

A nova economia: Informação e tecnologia como facilitadores

Uma das mudanças mais impressionantes que nossa sociedade tem presenciado na última década é o crescimento de uma nova economia.

Nesta nova economia, a informação em todas as suas formas tornou-se digital, reduzida a bits armazenados em computadores e correndo por redes na velocidade da luz.

Cuida-se de uma economia do conhecimento, baseada na aplicação do know-how humano a tudo o que produzimos e como produzimos. Cada vez mais valor agregado será criado pelo cérebro (e não pela força), de modo que a incorporação de ideias será a base da geração de riquezas nessa era de interligação em rede, não apenas da tecnologia, mas também de seres humanos, organizações e sociedade.

Em breves palavras, essa nova economia, também conhecida por Economia Digital, Economia da Internet ou Economia da Webé um novo modo de se fazer negócios que utiliza informação e tecnologia como facilitadores da comunicação, transferência de dados e transações comerciais.

Vejamos, a seguir, como esta Economia da Web está transformando os valores do mundo atual, exigindo uma urgente mudança de postura dos seguimentos nascidos na sociedade industrial.

Os modelos de negócios “Em Rede” como essência da economia digital

Para alcançarmos o objetivo deste artigo, faz-se necessário agora delimitar o que é um modelo de negócio.

Um modelo de negócio descreve como uma empresa cria valor por meio da combinação de recursos externos e internos e o entrega de forma diferenciada a seus clientes.

Pois bem, estudos sobre modelos de negócio digital[1] surgiram entre os acadêmicos e a mídia de negócios, num primeiro momento, no início da década de 1990, em função da internet e do rápido crescimento dos novos mercados.

Num segundo momento, vieram os aplicativos colocados nos smartphones os quais mudaram significativamente os serviços oferecidos aos clientes.

Até agora, contudo, o foco do mundo corporativo concentrou-se nas tecnologias em si, e não nas potencialidades de transformação de modelos de negócios que estas tecnologias possibilitam. Observa-se empresas alterando suas formas tradicionais de criar e entregar valor, mas através de novos desenhos organizacionais “adaptados” às inovações tecnológicas.

Ocorre que as inovações tecnológicas (Cloud, AnalyticsMobile e Social) são a camada mais básica dessa jornada em direção à transformação dos negócios.

As empresas que desejam sobreviver na Era Digital terão, portanto, de começar a pensar de forma digital e criar modelos de negócio que reflitam este pensamento.

A imensa maioria das empresas baseia seus modelos de negócio nos conceitos da sociedade industrial: as que fabricam produtos (a maioria das empresas) e as que fornecem serviços. Estes dois modelos compõem cerca de 90% das 1.500 maiores empresas do mundo.

Os outros 10% restantes, compreendem as empresas criadoras de tecnologia (cerca de 9% das 1500 maiores empresas) e as agregadoras ou orquestradoras de redes[2], estas últimas abrangendo apenas 1% das maiores empresas do mundo. Como exemplo de agregadora ou orquestradora, podemos citar a Apple, uma vez que criou uma rede de apps em torno de seus smartphones, que a valorizam exponencialmente. Sem a comunidade de apps, a Apple valeria muitíssimo menos que hoje e, ressalte-se, não é a Apple que produz os apps.[3]

Aqui, nos cabe fazer uma ressalva. O modelo de negócios em rede, agregador, poderá ser aplicado, independentemente de qual setor a empresa que deseje sobreviver na Era Digital atue. Eis a razão porque se tem visto, por exemplo, a indústria automotiva se aliando a gigantes como Google para investir em automóveis inteligentes e plataformas de mobilidade pessoal. Tal não implica em substituir o modelo atual, mas sim em complementá-lo.

E essa movimentação das empresas não é à toa, se considerarmos que desde o ano 2000, 52% das empresas da lista da Fortune 500 foram adquiridas, perderam relevância, ou faliram em decorrência da evolução e crescimento exponencial da tecnologia.

Bem por isso, 53% dos CEOs apontam que nos próximos anos, os novos modelos de negócios, com fundamento em novas tecnologias, serão seu maior risco estratégico[4].

Como clientes-usuários, observamos o quanto estes novos modelos de negócios representam avanços e ganhos significativos. Mas como os profissionais, em especial do Direito, têm se posicionado diante destes avanços tecnológicos e dos novos negócios que se apresentam?

Os impactos da economia da Web nos diversos seguimentos sociais

Os impactos e reflexos provocados pela revolução digital não ocorrem somente nos modelos de negócios, mas em toda a sociedade, incluindo seguimentos mais maduros e fortemente regulamentados.

A medicina preventiva está sendo remodelada pela proliferação de sensores de baixo custo e a decodificação do genoma humano. Robôs de telepresença (dispositivos móveis que permitem uma integração da máquina ao ambiente por meio de um controle à distância) estão revolucionando hospitais brasileiros. Fábricas estão sendo redefinidas pela robótica avançada e pela impressão 3D. A energia está prestes a passar por um renascimento diante da escassez de combustíveis fósseis e do surgimento de uma variedade de alternativas mais sustentáveis. Agricultura, educação, o setor de serviços e o varejo também estão se transformando.

Isso, sem mencionar as inúmeras mudanças do perfil profissional atualmente exigido pelo mercado, nos vários segmentos de atividade afetados pela digitalização. Não apenas os taxistas têm seu emprego ameaçado, mas também profissionais com diferentes níveis de qualificação: do executivo, ao consultor, ao profissional liberal às ocupações mais operacionais. A empresa de equipamentos e materiais desportivos Adidas, por exemplo, está trazendo a produção de calçados da Ásia de volta à Alemanha, com um pequeno detalhe: os trabalhadores serão quase integralmente robôs.

Paralelamente a esse ritmo alucinante de transformações provocada pela internet, também aumentou exponencialmente a pressão sobre os que desejam sobreviver à Era Digital (as empresas ou players tradicionais).

E a medida em que esta pressão sobre os players tradicionais cresce, estes, por sua vez, também pressionam governantes no sentido de abrandar o ritmo dessa transformação através de atos e normas que mantenham as práticas de gestão tradicionais.

Na outra ponta desse processo, consumidores exigem um ordenamento jurídico que acompanhem o ritmo das inovações.

Diante deste quadro, como a classe política deve se posicionar?

O posicionamento das autoridades públicas diante da economia digital e a conjuntura crítica em que se encontra a inovação tecnológica

O governo tem de acompanhar a tecnologia para desempenhar o papel que deve ter com qualquer indústria: assegurar que o jogo seja nivelado e aberto a todos, estabelecer e fazer cumprir as leis, e proteger o público de quaisquer efeitos negativos ocasionados pelos avanços tecnológicos.

Conquanto a tecnologia e a política possuam “timings” diferentes, é preciso que consumidores, empresas e autoridades públicas comecem a encarar a economia digital como fonte de novas oportunidades, o que pode contribuir para a retomada do crescimento econômico.

Impulsionados pela inovação, os novos modelos de negócios possuem um potencial enorme a contribuir com competitividade e crescimento do país.

Apesar da resistência de certos setores em relação às novas tendências, é preciso que consumidores, empresas e autoridades públicas enxerguem as novas oportunidades de emprego, flexibilidade de trabalho, novas fontes de renda e o uso mais eficiente de recursos proporcionados pela Era Digital.

Considerações Finais: A necessidade de uma agenda política nacional destinada às novas questões-chave surgidas com a economia digital

Questões relacionadas à aplicação dos quadros jurídicos existentes, sem dúvida, terão de ser revistas, para desfigurar o antigo arcabouço legislativo já existente entre consumidores e prestadores de serviço ou fornecedores, trabalhadores assalariados, trabalhadores autônomos e empresas, e ainda, a prestação de serviço profissional e não profissional, dentre outros. E isso, num primeiro momento, pode resultar em incertezas sobre qual a legislação aplicável, especialmente quando considerada a fragmentação jurídica resultante das diferentes abordagens legislativas nos níveis federal, estadual e municipal.

Contudo, tais incertezas não farão desaparecer a necessidade urgente de uma agenda política nacional destinada a rever o tratamento jurídico dispensado às novas questões-chave surgidas com a Economia Digital, enfrentadas tanto pelos operadores do mercado como pelas autoridades públicas.

Nesse passo, é preciso que legislador brasileiro abandone as abordagens pontuais e desconectadas com as demais esferas de governo, e passe a abraçar as novas oportunidades de inovação, competitividade e crescimento oferecidas pela modernização da economia.

Ao mesmo tempo, é importante que se incluía nos debates dessa agenda política nacional a discussão sobre condições de trabalho justas e a proteção adequada e sustentável dos consumidores e dos cidadãos. Mais ainda, deve-se chamar incluir cidadãos e empresas num debate nacional, de modo que participem dos rumos legislativos quanto à economia digital e estejam cientes das regras e obrigações que lhes são aplicáveis.

Ainda, os governos locais e estaduais devem ser incentivados a posicionar-se no contexto nacional de forma semelhante, colocando-se à disposição para trabalhar junto com as demais esferas de governo (federal, estadual e municipal), aceitando suporte e apoio de entidades especialistas neste processo.

E aqui, finalizamos este artigo na expectativa de que este trabalho contribua com uma visão mais macro de todo o quadro pertinente à economia digital, bem como estimule as autoridades públicas a elaborarem e aplicarem de forma coerente a legislação pertinente, assegurando, assim, melhor ambiente possível para os cidadãos e as empresas atingidos pelas inovações tecnológicas.

Fonte: https://jota.info/artigos/a-digitalizacao-da-sociedade-economia-da-web-no-brasil-19052017